A eleição da vingança

A democracia virou arma de destruição que uma parte do eleitorado aponta contra a outra

MARCOS NOBRE

03out2018_07h30

  

Em 2014, depois de uma vitória apertada, Dilma Rousseff resolveu fazer o contrário do que tinha prometido como candidata. Aécio Neves resolveu não aceitar o resultado das eleições, com ações na Justiça e a convocação de manifestações de rua. E a Lava Jato começou a passar a motoniveladora no sistema político.
Foi nesse momento que Bolsonaro entrou em campanha. Seu discurso dizia que o PT precisava ser eliminado, mas que o PSDB não merecia destino diferente. Os tucanos tinham perdido nada menos do que quatro eleições seguidas para o PT por uma razão simples: não eram antipetistas o suficiente para ganhar. Eram farinha do mesmo saco, estavam mancomunados para se manter no poder, em um joguinho de fingimento. Bolsonaro prometia o antipetismo de raiz, sem a gravata e o ar-condicionado do PSDB.

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Marina entra no jogo

Marina entra no jogo
Candidata enfim define estratégia à altura de seu potencial

Marcos Nobre

Parte relevante do eleitorado busca já há algum tempo escapar da alternativa PT-PSDB. Em 2010 e 2014, esse papel de escape coube a Marina Silva. Nos dois casos, terminou em terceiro lugar, com uma votação próxima de 20%.

A partir de 2014, as preferências de voto no PSDB se mostraram muito menos sólidas do que as do PT. E isso antes mesmo das revelações que tornaram Aécio Neves um morto-vivo político. O desejo de romper a alternativa ameaça muito mais a posição do PSDB no segundo turno do que a do PT. Porque o PT tem uma impressionante fortaleza de votos chamada Lula. Daí que a eleição acabe se estruturando nos polos Lula e anti-Lula, muito mais do que PT e PSDB.

A última eleição foi marcada por uma grande reviravolta. Marina Silva só assumiu a cabeça da chapa após a trágica morte, em 13 de agosto, de Eduardo Campos, então principal desafiante da alternativa PT ou PSDB. Formou-se ali uma onda pró-Marina e a candidata ultrapassou Aécio Neves nas pesquisas já no final de agosto. Chegou a empatar com Dilma Rousseff em 34%, deixando Aécio em terceiro, com apenas 15%. O candidato do PSDB ainda teve tempo de reagir. Ultrapassou Marina novamente às vésperas do primeiro turno e foi ao segundo turno contra Dilma.

São muitos os fatores que podem explicar como e por que essa dupla reviravolta aconteceu. O principal foi a campanha negativa contra Marina realizada pela candidatura Dilma. Sem tempo nem recursos à altura para responder, Marina perdeu intenção de voto para Aécio na mesma proporção em que havia conquistado ao longo dos quarenta dias anteriores.

 

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Quem será o anti-Lula?

Quem será o anti-Lula?
Alckmin, Marina e o voto útil de direita no primeiro turno

Marcos Nobre

A montanha-russa das pesquisas ainda não veio. A única real novidade dos últimos levantamentos é um candidato que, preso, conseguiu subir quatro pontos na intenção de votos. Lula chegou a 37%. É a mesma porcentagem que tinha na pesquisa Datafolha de 30 de agosto de 2002, ano em que venceu sua primeira eleição presidencial. Hoje, a vantagem de Lula em relação ao segundo colocado (Jair Bolsonaro, com 18%), é muito semelhante àquela que tinha em relação ao segundo colocado no Datafolha de 30 de agosto de 2002, Ciro Gomes, que registrava então 20%.

A grande diferença da situação atual em relação àquela de 2002 é que José Serra (que chegou ao segundo turno naquela eleição) estava então em empate técnico com Ciro (tinha 19%). Hoje, a terceira colocada, Marina Silva, com 6%, surge a grande distância do segundo colocado, em empate técnico com Geraldo Alckmin (5%) nesse cenário com Lula.

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Tempo eleitoral

TEMPO ELEITORAL: MODOS DE USAR
Os dilemas do PSDB e do PT numa disputa atípica

A dispersão de votos em cenários sem a presença de Lula impôs essa nova lógica. As máquinas partidárias empurraram suas decisões para utilizar os limites máximos de prazo e reduzir ao mínimo o tempo próprio de campanha. Tudo é resolvido em cima da hora e o clima geral é de salve-se quem puder, cada um com seus problemas.
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A Cisão

A CISÃO

Eleição tende a acentuar dramaticamente o fosso entre azuis e vermelhos

Do jeito que se armou a eleição presidencial, as coisas caminham para novo embate entre PT e PSDB. As novas circunstâncias tendem a reforçar ainda mais traços preocupantes de confrontos presidenciais anteriores entre os dois partidos. Em especial, tendem a agravar em nova chave a tendência de cisão entre Norte e Sul do país que vem desde a eleição presidencial de 2006.

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Bolsonaro

Bolsonaro – Elitismo e democracia na campanha eleitoral

Marcos Nobre

A hegemonia dessa tática equivocada de confronto da candidatura de Bolsonaro não é casual, entretanto. No fundo, disfarça mal seu elitismo, que pressupõe saber quem pode e quem não pode se apresentar na eleição. É uma tática de confronto que não admite nem aceita a candidatura de Bolsonaro como legítima em uma democracia. Ataca seu eleitorado e quem o apoia como ignorante, tosco e xucro. A consequência mais óbvia do equívoco é reforçar no eleitorado a imagem de que é uma candidatura contra as elites. Não poderia haver apoio mais efetivo a Bolsonaro do que desqualificar sua candidatura nesses termos.

Enfrentar Bolsonaro de maneira eficaz exige primeiro aceitar que ele tem direito de ser candidato. Mais que isso, exige aceitar que ele está exercendo esse direito, que Bolsonaro é candidato. Parece óbvio, mas não é. O estado de negação em que se encontra boa parte da elite pensante está atrasando de maneira alarmante o combate efetivo a essa ameaça, que tem de ser travado, neste momento, na arena propriamente eleitoral.

Aceitar Bolsonaro como candidato permite atacá-lo em seu ponto de maior vulnerabilidade. Em uma campanha eleitoral, o que conta é demonstrar capacidade e convencer de que poderá resolver os problemas do país com política. Todas as vezes em que foi levado a esse terreno, o líder autoritário das redes sociais fracassou de maneira inapelável.

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A Estratégia de Lula

A Estratégia de Lula

Marcos Nobre

Por que o ex-presidente adia a escolha de seu substituto

A escolha de Geraldo Alckmin pelo Centrão concluiu o leilão de privatização da candidatura unificada de centro-direita. Começou de fato a campanha. E a primeira ideia que ocorre é que a bola passou para a centro-esquerda, que seria obrigada a se mexer. Isso significa: Lula teria de indicar já quem vai substituí-lo na urna em outubro. Só que a estratégia do ex-presidente é bastante diferente.

Mesmo preso, Lula conseguiu colaborar em muito para o adiamento da unificação da centro-direita. Se não se sabe quem será o adversário, fica difícil organizar estratégias eleitorais. Especialmente se o adversário preso é o líder isolado na intenção de votos. Já escaldada por quatro derrotas presidenciais contra Lula, a centro-direita pagou para ver qual seria a capacidade do ex-presidente de fazer articulações mesmo estando preso e sem poder ser candidato.

 

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O centrão propõe

Marcos Nobre – Revista Piauí – 18/07/2018

“A eleição deste ano é de repactuação. O pacto anterior contava com dois pilares, PT e PSDB, que sustentavam a ponte formada pelos PMDBs todos. Caiu a ponte, racharam os pilares. Não é de surpreender que até agora não se tenha uma única aliança eleitoral nacional consolidada. O que surpreende é que a única proposta de repactuação tenha vindo até agora do Novo Centrão, na formulação que lhe foi dada pelo consórcio formado por DEM, PP e SD. A proposta é abandonar o modelo organizado em dois polos, com um mar de PMDBs no meio. A ideia é produzir antes da eleição o bloco que irá governar. Ou seja, dividir o butim de governo desde já, diminuindo ao máximo a margem de manobra de quem se eleger. Como contrapartida à limitação da margem de ação do futuro presidente, oferece a diminuição das instabilidades do início de governo, típicas do modelo peemedebista do pacto anterior.”

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Mundo pré-globalização terminou em 2013

O professor de filosofia da Unicamp é o entrevistado da semana no podcast.

A conversa com Uirá Machado, editor da Ilustríssima, abordou seu livro recém-lançado, “Como Nasce o Novo” (Todavia), um mergulho aprofundado na introdução da “Fenomenologia do Espírito” de Hegel, obra essencial do pensamento ocidental.

Nobre também discute semelhanças entre o início do século 19 e o contexto atual; para ele, são dois momentos em que um mundo antigo é deixado para trás.

Hegel escreveu a “Fenomenologia do Espírito” enquanto as tropas de Napoleão invadiam a Alemanha —e, para o filósofo, carregavam a promessa de institucionalizar a ordem que se seguiria ao Antigo Regime.

Na interpretação de Nobre, essa espécie de transição caracteriza a atualidade: o mundo pré-globalização, diz ele, terminou em 2013; o que vem agora ainda não se sabe.

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Folha de S Paulo, 28/05/2018