Painel

Painel sobre violência na política c/ Eduardo Giannetti, Marcos Nobre e José Eduardo Faria

https://youtu.be/ZGpwAwd8awE

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Como nasce o velho

Como nasce o velho

À direita e à esquerda são movimentos que não têm qualquer esperança de mudar o funcionamento viciado das estruturas partidárias existentes a partir de dentro.

Marcos Nobre, Época, 21/03/2018

Segundo apurou o repórter Raymundo Costa, do Valor Econômico, o programa do candidato Geraldo Alckmin prevê fazer em primeiro lugar a reforma política. Só depois viriam as reformas da Previdência e tributária. Em sua recente viagem a Washington, Alckmin teria dito: “Com essa fragmentação, ninguém governa”.

É o caso de prestar atenção. Em 2016, foi Alckmin quem propôs que Temer aprovasse em primeiro lugar a reforma da Previdência, e não o teto de gastos. O teto está para cair e a reforma da Previdência subiu no telhado. Parece que pelo menos de timing político Alckmin entende. E é altamente significativo que coloque agora a reforma da Previdência em segundo lugar em seu cronograma.

A reforma política que vislumbra pretende produzir a concentração partidária. Menos partidos. E bem maiores em termos de tamanho de bancadas no Congresso. Hoje, segundo os últimos números disponíveis, só há dois partidos com mais de 50 deputados: o MDB, com 56, e o PT, com 58, maior bancada individual. De um total de 513.

Em 1999, no início de seu segundo mandato, FHC contou com o apoio formal de 105 deputados do antigo PFL (atual DEM), de 99 do PSDB, de 84 do PMDB (atual MDB). O então quarto maior partido da base parlamentar de FHC, o antigo PPB (atual PP), tinha 60 deputados. Ou seja, há 20 anos, dois terços das cadeiras da Câmara estavam concentrados em apenas quatro partidos da base do governo. O PT vinha então em quinto lugar em tamanho, com os mesmos 58 deputados que tem hoje. Os demais partidos tinham bancadas de 31 deputados ou menos.

Em condições históricas bem diferentes, é esse horizonte de 20 anos atrás que a reforma política de Alckmin busca restaurar. A Lava Jato e suas filiais tiraram do jogo muitos atores dentro de seu próprio partido, o PSDB. Alckmin tem espaço para apoiar um número bem maior de aliados nas eleições regionais do que em momentos anteriores. Sabendo negociar, poderá desde já distribuir poder dentro de sua campanha entre alguns dos partidos que o apoiam, de maneira a lançar as bases de futuras fusões partidárias.

Aquele que se apresentará na eleição como o “candidato Geraldo” mira a construção de pelo menos um novo grande partido, capaz de ocupar novamente a posição de eixo organizador da centro-direita. Vai no mesmo sentido o projeto do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que, em entrevista à Folha de S.Paulo de 17 de dezembro do ano passado, disse querer formar “um novo partido, que possa ter um número relevante de governadores, uma representação importante de 15 a 20 senadores e possa voltar a ter no Congresso um partido com 100 deputados”. Esse projeto foi gestado no governo Temer, utilizado pela centro-direita como interregno para elaborar um diagnóstico da situação e como laboratório de construção de uma agenda mínima, de certo programa comum para além de suas muitas divisões.

Foi exatamente o que a centro-esquerda não fez nesse período. Não apenas não conseguiu fazer oposição efetiva ao governo Temer. Também não utilizou a unidade do campo que surgiu na resistência à parlamentada de 2016, que derrubou Dilma Rousseff, para construir um programa mínimo comum para além de suas divisões, capaz de surgir como projeto para o futuro.

Do lado da centro-esquerda, a disputa é unicamente pela divisão do espólio do PT. Ciro Gomes quer recolher os destroços a partir do centro, Guilherme Boulos a partir da esquerda. Até o momento, a real disputa é por quem vai liderar esse campo no pós-Lula.

É preciso não confundir essas disputas internas ao sistema político com os chamados movimentos de renovação da política. À direita e à esquerda são movimentos que não têm qualquer esperança de mudar o funcionamento viciado das estruturas partidárias existentes a partir de dentro.

Pretendem renovar o sistema político a partir da sociedade. Mas não demonstraram força suficiente para virar o jogo que está sendo jogado. Até o momento, pelo menos. Porque a regra do jogo até agora é mudar o sistema político bricolando os destroços do sistema partidário existente.

Fonte: https://epoca.globo.com/politica/Marcos-Nobre/noticia/2018/03/como-nasce-o-velho.html

As trocas de março

As trocas de março
Elas vão decidir o lugar que cada força política ocupará na largada de 7 de abril
MARCOS NOBRE
07/03/2018 – Revista Época

Durante todo um mês, a partir de 7 de março, deputados estaduais e federais podem trocar de partido sem punição. Precisam apenas respeitar o prazo de filiação de 7 de abril se quiserem concorrer em outubro. Para preservar seu poder, as cúpulas partidárias precisam não perder deputados e senadores. Para tentar ampliá-lo, precisam conquistar novos deputados e senadores.

As cúpulas partidárias decidem quem vai constar e quem não vai constar em suas listas de candidaturas. Decidem quanto cada candidatura receberá do fundo partidário e do fundo eleitoral. Decidem, em suma, quem tem chances de se eleger.

Com o financiamento quase que exclusivamente público das campanhas, o poder das cúpulas partidárias chegou provavelmente a seu ponto máximo na última década. Não por acaso, é um movimento que coincide com o momento de maior fragilidade dos partidos e do sistema político desde o fim da ditadura civil-militar de 1964. Para sobreviver a uma crise que se ameaçava terminal, a resposta do sistema político foi concentrar poder.

Esta será em grande medida uma eleição de máquinas partidárias, portanto. Como talvez nenhuma outra antes dela em muito tempo. Em um país movido a paradoxos, é uma eleição de máquinas partidárias que coincide com as crises agudas dos últimos anos, com uma rejeição generalizada ao modo de funcionamento do sistema político, com o descrédito dos partidos. Contrasta cruamente com o avanço que deveria representar a introdução do financiamento quase que exclusivamente público de campanhas.

Mas os paradoxos não mostram apenas e uma vez mais a extraordinária capacidade de adaptação de um sistema político estropiado quando se trata de sua própria sobrevivência. (Afinal, a primeira regra não escrita da eleição deste ano é: quem conseguir um mandato ou cargo com privilégio de foro já escapou da Justiça). A agudeza da crise deixou claro para o próprio sistema que ele vai ter de mudar para sobreviver. Mesmo que seja para que tudo fique mais ou menos da mesma maneira.

Está claro, por exemplo, que é preciso diminuir a fragmentação e construir pelo menos um partido de centro-direita de tamanho suficiente para vertebrar o sistema. É também de olho nessa futura reorganização geral que cada partido vai tentar chegar a 2019 na melhor situação possível para negociar seu lugar no novo arranjo. Daí a importância decisiva das trocas de março, fechando o verão do descontentamento do sistema político.

É também por tudo isso que Geraldo Alckmin tem chance, mesmo não empolgando ninguém. É candidato único da centro-direita em uma eleição de máquina. Supostas outras candidaturas nesse campo político não passam hoje de devaneios. A configuração definitiva dessa campanha presidencial pode estar momentaneamente suspensa, aguardando o resultado das trocas de partido de março. Mas não há dúvida sobre quem será o candidato unificado da centro-direita.

Maia e Temer não são de fato candidatos à Presidência, portanto. Colocam-se como tais apenas para negociar a melhor posição possível na campanha de Alckmin. E, de quebra, prometem entregar na bandeja do tucano a cabeça de pelo menos um dos pré-candidatos ainda por ser eliminado, o ministro Henrique Meirelles.

A intervenção no Rio de Janeiro não pretende apenas tentar tirar Temer do fundo do poço da irrelevância política. Faz parte da estratégia de defender as bancadas do partido do presidente contra ataques especulativos por parte de outros partidos. E, ao mesmo tempo, tenta impedir o fortalecimento do dem como parceiro preferencial de Alckmin. Com a intervenção, Temer tirou de Maia o protagonismo em seu próprio estado de origem. O dem respondeu com o anúncio do lançamento de Rodrigo Maia à Presidência, marcado para 8 de março.

As trocas de março vão decidir o lugar que cada força política ocupará na largada de 7 de abril. Que posições terão na linha de chegada em outubro depende de como o eleitorado vai lidar com uma eleição dividida entre fuga da polícia e uma ainda nebulosa futura reorganização do sistema político-partidário.

 

Fonte: https://epoca.globo.com/politica/Marcos-Nobre/noticia/2018/03/trocas-de-marco.html

 

A cavalaria tucana

A cavalaria tucana. E uma despedida
PSDB tem experiência em tomar governos pelo alto.
A última chance de sobrevivência para Temer é a formação de um novo governo a partir de fevereiro de 2017, sob o comando do PSDB.

Marcos Nobre

Valor, 19/12/2016

É verdade que Temer não se cansou de dar tiros no próprio pé, mas aproveitou de maneira eficiente a janela dos seus sete primeiros meses de governo. Mesmo sob fogo intermitente da Lava-Jato, a confusão generalizada acabou jogando a favor de sua agenda. O grande emblema, a PEC dos gastos, foi objeto de aprovação no atropelo, sem que a grande maioria da população tenha entendido do que se tratava, sem que a oposição tenha conseguido inflamar as ruas. Agora que o entendimento parece um pouco mais amplo, quando a emenda já foi promulgada, as pesquisas mostram uma sólida maioria contra a medida. Ou seja, o efeito tecnocrático-surpresa não poderá mais ser usado no futuro. A conversa com o eleitorado terá de ser de outro tipo a partir de agora.Leia mais »

Vai dar para esperar até 2018?

Vai dar para esperar até 2018?
Renan está para Delcídio como Temer para Dilma.
O embate entre Renan Calheiros e o STF cristalizou uma oposição que arrisca levar ladeira abaixo o governo Temer.

Marcos Nobre

Valor, 12/12/2016

Sabe-se lá como, o governo Dilma conseguiu sobreviver a uma tempestade perfeita até o momento em que o ministro Teori Zavascki ordenou a prisão de Delcídio do Amaral, senador no exercício do mandato, líder do governo no Senado. Nesse mesmo dia 25 de novembro de 2015, a decisão do ministro foi referendada pela 2a. Turma do STF e confirmada em votação no Senado. A partir desse momento, o sistema político entrou em estado de pânico permanente.

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O futuro dos partidos

O futuro dos partidos
Ou se aprofunda a democracia ou vence a barbárie.
Cúpulas partidárias terão de colocar em jogo o controle que hoje têm em nome da própria sobrevivência dos partidos em condições democráticas.

Marcos Nobre

Valor, 05/12/2016

A cúpula do Partido Republicano fez de tudo e mais um pouco para evitar que Donald Trump se tornasse o candidato à presidência. Viu o partido ser invadido e tomado por um outsider, sem conseguir impor um nome menos hostil. A máquina partidária perdeu o controle do processo. Mas venceu as eleições presidenciais.Leia mais »

Feios, sujos e malvados

Feios, sujos e malvados
Anistia foi enterrada por não garantir salvação geral.
Fica claro uma vez mais que é o Centrão que dá as cartas, o autêntico pilar de sustentação do governo Temer.

Marcos Nobre

Valor, 28/11/2016

Enquanto isso, na paróquia política brasileira, o susto da semana não foi a demissão de Geddel Vieira Lima. O verdadeiro susto veio com o vídeo divulgado pelo deputado Rogério Rosso, líder do PSD na Câmara, no mesmo dia da demissão do ministro da Secretaria de Governo, em que disse: “Caso o Congresso Nacional venha a aprovar qualquer tipo de anistia, não só o caixa dois, mas qualquer outro crime, o presidente Temer vetará imediatamente”. No vídeo, Rosso diz ter recebido de Temer expressa autorização para levar a decisão ao conhecimento da sociedade. Foi colocado na posição de porta-voz da Presidência. Mais um. Ao confirmar a informação em entrevista ao Jornal Nacional no dia seguinte, Rosso criou um fato consumado.Leia mais »

O atraso no comando

O atraso no comando
A ameaça vem em forma de chantagem: anistia geral ou caos.
Teve início uma nova etapa da guerra da política oficial em defesa de seu próprio salvamento.

Marcos Nobre

Valor, 21/11/2016

Ainda ontem se podia consultar no site oficial do PSDB a transcrição de uma conversa entre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o então senador pelo PT Cristovam Buarque. Está datada de 29 de novembro de 2004. Cristovam já era ex-ministro da Educação do governo Lula e viria a sair do PT no ano seguinte, quando do aparecimento da denúncia do mensalão.Leia mais »

Democracia exposta

Democracia exposta
A própria democracia deixou de ser uma evidência.
Já ficou claro que os eleitorados não vão recuar diante da ameaça do caos.

Marcos Nobre

Valor, 14/11/2016

Aconteceu uma vez, no plebiscito sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, e a explicação bem pensante disse que tinha sido raio em céu azul. Veio o referendo na Colômbia sobre o acordo de paz e uma série de explicações tiradas da cartola tentou mostrar que era ponto fora da curva. A eleição de Donald Trump fixou de vez a exceção como regra, o desvio como tendência.Leia mais »

Samuel L. Jackson encontra John Wayne

Samuel L. Jackson encontra John Wayne
Ford e Tarantino têm muito a ensinar sobre a eleição nos EUA.
Se Hillary Clinton vencer, será por ter se comprometido a não resolver o que não pode ser resolvido por uma eleição presidencial.

Marcos Nobre

Valor, 07/11/2016

Parece que Hillary Clinton vai ganhar. Parece. Mas, se vencer, o alívio de ter conseguido desviar de rota o Godzilla da política mundial não vai afastar o mal-estar de instituições que estão funcionando de maneira disfuncional. E não só nos EUA.Leia mais »