Temer se preparou para guerra e PSDB lavou as mãos

Para filósofo da Unicamp, Temer se preparou para guerra e PSDB lavou as mãos

Mariana Sanches – O Globo, 04/06/2017

Para o filósofo da Unicamp Marcos Nobre, se Temer sobreviver ao mês de junho, não cairá mais. Mas também não será capaz de fazer as reformas e viverá crises agudas a cada dois meses.

 

O senhor acredita que o presidente Temer concluirá o mandato?

Está claro que a política está travando a economia e que a economia só vai voltar a funcionar quando houver estabilidade política. Nos últimos dois anos e meio o sistema político perdeu o controle da política, o que é muito grave. Temos um sistema político encurralado pelo Judiciário. Para retomar estabilidade política hoje, é preciso um governo que não esteja o tempo todo ameaçado por uma nova revelação comprometedora. E esse governo não é o governo Temer. Se o Temer ficar, a instabilidade será permanente, com crises agudas a cada dois meses.

De que maneira o centrão e o PMDB se reorganizaram depois de baixas como a de Eduardo Cunha?

O Centrão só ganhou densidade e uma certa homogeneidade por causa do Cunha. Ele percebeu que se organizasse o Centrão daria para usar (para controlar o poder). Desde que o Temer assumiu, o projeto dele foi desmontar o Centrão, que estava muito poderoso.

Qual é a lógica de desmanchar o Centrão?

A lógica do peemedebismo é a lógica da fragmentação, para não deixar ninguém ter uma posição de hegemonia. O PMDB é uma empresa de venda de apoio parlamentar. Isso significa também que o PMDB não tem condição de governar porque para governar você precisa coordenar e o PMDB não tem tecnologia para coordenar governo.

Como o senhor vê os movimentos do presidente Temer?

O que o Temer está tentando fazer é sobreviver até o fim de junho, porque aí há o recesso do Judiciário e, em meados de julho, o recesso do Congresso. O cálculo de sobrevivência desse governo é muito simples. Se chegar até agosto, não cai mais, por conta da proximidade do calendário eleitoral. Por isso o Temer está alardeando que as reformas estão andando, porque é um faz de conta necessário para enrolar esse mês.

O que pode atrapalhar os planos de Temer?

Só há duas forças que podem se opor a esse projeto continuísta. Em primeiro lugar, as ruas. Mas a impressão que dá é que esse tempo de um mês é curto demais para o movimento ganhar a massa e o volume que precisaria para poder derrubar o Temer. O segundo elemento é o PSDB. O destino do governo Temer hoje está nas mãos do PSDB.

E essa posição é boa para o PSDB?

O PSDB está adotando uma estratégia suicida, porque vai cair no colo dele a fatura pelas crises e impopularidade do governo Temer. Há um impasse e o PSDB está paralisado no momento em que sua própria existência está em causa, acreditando que está mantida sua posição natural de líder.

Ele já não é mais líder?

O candidato presidencial do partido em 2014, Aécio Neves, teve o mandato de senador suspenso e está ameaçado de ser preso a qualquer momento. Isso é uma ameaça evidente pro partido. A única saída para o PSDB perante seu eleitorado — essa elite mais esclarecida — seria retirar seu apoio ao governo e forçar o Temer a se retirar, oferecendo evidentemente uma alternativa de sustentabilidade. Mas para isso o PSDB teria que colocar a mão na massa.

E por que não colocou ainda?

Porque não está conseguindo unidade. De um lado, Aécio foi o grande fiador da entrada do PSDB no governo Temer e continua a ser seu maior defensor. De outro lado, o diretório de São Paulo está em pânico porque sabe que vai ser castigado na próxima eleição pelo que estão fazendo.

O que representa a nomeação de Torquato Jardim para a Justiça?

O Temer se pintou para a guerra. A nomeação quer dizer que a vida desse governo vai ser decidida no julgamento do TSE, então ele precisa de alguém que entenda de legislação eleitoral, que converse com cada ministro e saiba como eles pensam. O PSDB está lavando as mãos porque empurrou para o TSE a decisão. Pode-se dizer que o julgamento é técnico, mas se o TSE vir que existe uma alternativa ao governo Temer que se formou e se consolidou e que é possível cassar a chapa porque vai ter uma alternativa, eles vão fazer isso.

Mas essa alternativa não existe.

Não. Quando o PSDB tentou fazer as conversas para a substituição do Temer, incluiu o próprio Temer nas negociações. Nunca vi alguém querer substituir um sujeito que está na presidência e convidá-lo para conversar sobre o assunto. E o surrealismo inclui trazer o José Sarney para a mesa. Sarney foi ressuscitado porque é especialista em governo que não consegue governar, que é o que vai acontecer com o Temer. Outro lance político fatal do PSDB foi fazer acordo com o DEM. Com isso, os tucanos colocaram o Rodrigo Maia em uma posição muito estratégica.

É impossível fazer uma retrospectiva de 2016 a não ser em tempo real

Marcos Nobre: “É impossível fazer uma retrospectiva de 2016 a não ser em tempo real” 
Cientista social analisa o impasse político no Brasil e a ascensão da extrema direita no mundo, observando que 2016 deixará um dilema.
Entrevista no Jornal Zero Hora, 01/01/2017 (link) Por: Fábio Prikladnicki

Professor livre-docente da Unicamp, Marcos Nobre é um filósofo diferente: tem um pé na abstração conceitual dos grandes pensadores da teoria crítica e outro pé na realidade mais palpável da situação atual do Brasil e do mundo. Esta segunda competência ele tem exercitado não apenas no meio acadêmico, mas também na imprensa, tanto em sua coluna no jornal Valor quanto em entrevistas concedidas a diferentes veículos.

Leia mais »

Em 2017, sentimento de insatisfação pode virar contra o STF

Marcos Nobre: “Em 2017, sentimento de insatisfação pode virar contra o STF” 

Entrevista no EL PAÍS (link) por Andre de Oliveira

No final do ano passado, o filósofo e cientista político Marcos Nobre disse em entrevista ao EL PAÍS que a crise vista durante 2015 se prolongaria por 2016. Também fez a leitura de que o processo de impeachment de Dilma Rousseff, que tinha acabado de ser aceito por Eduardo Cunha, era só uma tática do sistema político para se salvar da Lava Jato. Agora, depois de um ano, ele avalia que a instabilidade vista lá atrás continua e que a operação, sediada em Curitiba, continua ditando o ritmo da vida nacional. Nobre traça um horizonte nebuloso para 2017, em que até o Supremo Tribunal Federal (STF) pode se ver no centro da insatisfação popular.

Leia mais »

A cavalaria tucana

A cavalaria tucana. E uma despedida
PSDB tem experiência em tomar governos pelo alto.
A última chance de sobrevivência para Temer é a formação de um novo governo a partir de fevereiro de 2017, sob o comando do PSDB.

Marcos Nobre

Valor, 19/12/2016

É verdade que Temer não se cansou de dar tiros no próprio pé, mas aproveitou de maneira eficiente a janela dos seus sete primeiros meses de governo. Mesmo sob fogo intermitente da Lava-Jato, a confusão generalizada acabou jogando a favor de sua agenda. O grande emblema, a PEC dos gastos, foi objeto de aprovação no atropelo, sem que a grande maioria da população tenha entendido do que se tratava, sem que a oposição tenha conseguido inflamar as ruas. Agora que o entendimento parece um pouco mais amplo, quando a emenda já foi promulgada, as pesquisas mostram uma sólida maioria contra a medida. Ou seja, o efeito tecnocrático-surpresa não poderá mais ser usado no futuro. A conversa com o eleitorado terá de ser de outro tipo a partir de agora.Leia mais »

Vai dar para esperar até 2018?

Vai dar para esperar até 2018?
Renan está para Delcídio como Temer para Dilma.
O embate entre Renan Calheiros e o STF cristalizou uma oposição que arrisca levar ladeira abaixo o governo Temer.

Marcos Nobre

Valor, 12/12/2016

Sabe-se lá como, o governo Dilma conseguiu sobreviver a uma tempestade perfeita até o momento em que o ministro Teori Zavascki ordenou a prisão de Delcídio do Amaral, senador no exercício do mandato, líder do governo no Senado. Nesse mesmo dia 25 de novembro de 2015, a decisão do ministro foi referendada pela 2a. Turma do STF e confirmada em votação no Senado. A partir desse momento, o sistema político entrou em estado de pânico permanente.

Leia mais »

Feios, sujos e malvados

Feios, sujos e malvados
Anistia foi enterrada por não garantir salvação geral.
Fica claro uma vez mais que é o Centrão que dá as cartas, o autêntico pilar de sustentação do governo Temer.

Marcos Nobre

Valor, 28/11/2016

Enquanto isso, na paróquia política brasileira, o susto da semana não foi a demissão de Geddel Vieira Lima. O verdadeiro susto veio com o vídeo divulgado pelo deputado Rogério Rosso, líder do PSD na Câmara, no mesmo dia da demissão do ministro da Secretaria de Governo, em que disse: “Caso o Congresso Nacional venha a aprovar qualquer tipo de anistia, não só o caixa dois, mas qualquer outro crime, o presidente Temer vetará imediatamente”. No vídeo, Rosso diz ter recebido de Temer expressa autorização para levar a decisão ao conhecimento da sociedade. Foi colocado na posição de porta-voz da Presidência. Mais um. Ao confirmar a informação em entrevista ao Jornal Nacional no dia seguinte, Rosso criou um fato consumado.Leia mais »

O atraso no comando

O atraso no comando
A ameaça vem em forma de chantagem: anistia geral ou caos.
Teve início uma nova etapa da guerra da política oficial em defesa de seu próprio salvamento.

Marcos Nobre

Valor, 21/11/2016

Ainda ontem se podia consultar no site oficial do PSDB a transcrição de uma conversa entre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o então senador pelo PT Cristovam Buarque. Está datada de 29 de novembro de 2004. Cristovam já era ex-ministro da Educação do governo Lula e viria a sair do PT no ano seguinte, quando do aparecimento da denúncia do mensalão.Leia mais »

A nova geração da política

A nova geração da política
O futuro do país está também nas escolas ocupadas.
Perguntar por chances eleitorais reduz a questão da nova geração da política à pergunta pela geração nova da política.

Marcos Nobre

Valor, 31/10/2016

Terminada uma eleição, a primeira pergunta que se faz é pelas chances que teriam figuras já conhecidas para as eleições seguintes. As chances de Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Lula, Marina Silva, Ciro Gomes, Fernando Haddad e por aí vai. O problema desse tipo de foco é o imediatismo, limitado à próxima eleição. É um raciocínio que pensa que política é apenas eleição.Leia mais »

A centro-direita não tem pressa

A centro-direita não tem pressa
Uma trégua tensa vigora no campo à esquerda.
A atual ausência de coesão à esquerda permite que a centro-direita deixe para 2018 a definição sobre seu real polo aglutinador.

Marcos Nobre

Valor, 24/10/2016

Até 2014, parecia que tinha se tornado parte da paisagem política a polarização entre uma candidatura de centro-direita e outra de centro-esquerda. A partir da eleição de 1994, o PT conseguiu se firmar como líder inconteste da esquerda, o que se confirmou na eleição seguinte, em 1998, com a chapa Lula-Brizola. Em 2002, o PT estendeu sua hegemonia para o campo da centro-esquerda, o que foi simbolizado pela chapa Lula-José Alencar.Leia mais »

O destino do governo Temer depende do PSDB

O destino do governo Temer depende do PSDB

Temer se equilibra entre Aécio e Alckmin.
Temer tenta ao mesmo tempo equilibrar o jogo e se posicionar como fiel da balança na disputa entre Aécio e Alckmin.

Marcos Nobre

Valor, 17/10/2016

Perguntado no sábado sobre uma eventual aliança com o PSDB para as eleições de 2018, Michel Temer respondeu que tal possibilidade é “extremamente prematura porque essas coisas só serão cogitáveis no final do ano que vem”. É certo que o primeiro horizonte para 2018 fica no final de 2017. O que não é exato é que o atual governo vá esperar até lá para começar a se mexer.Leia mais »